Da onde viemos?

Plantei gerúndios e nasceram orgasmos. Pensei em criar filhos em amplas liberdades e nasceram alguns tabus dos mais engraçadinhos. Ponho na terra, rego e adubo, e, no final, nascem folhas tortas, secas e não tão belas, apesar de sempre florir de vez em quando. Entre o ontem e o amanhã há esse istmo que chamamos de hoje e que precisa ser preenchido com dores, alegrias e perseguições.

Fui formado por muitas pessoas, distintas e parecidas, bem intencionadas e incidentais, pessoas mortas e as mais vivas que conheço. Mas como distingui-los, se são todos homens e nascem todos iguais perante a nossa consciência? Há tempos que viajo com sacrifício para o prazer e a leviandade e quando chego só encontro deveres e cobranças. Minha formação se deve a essa multicolorida sensação de minutos diferentes e prestações infinitas, pagas, até certo ponto, com muito prazer.

Como era verde o meu jardim e azul o meu céu e branco o meu pensamento. Fui sendo moldado e escrito pela ordem das coisas e pelos sonhos e intenções dos que me cercam e que impõem responsabilidades. Essa relutância que insisto em manter e empregar como algo mundano e essencial é a parte sincera e intragável da minha personalidade.

Os risos e os tapinhas nas costas formaram muito menos o meu caráter do que as noites de dor e de vergonha que passei no escuro com as mãos divididas entre tapar os olhos ou fechar os ouvidos.

A sabedoria proverbial não sabe o que a espera e eu não quero mais encontrar a verdade que me embarga os passos e me tolhe os prazeres dessa vida intransigente. Tento ser o mais verdadeiro a cada dia que passa e luto incessantemente para clarear as muitas sombras que ainda restam de batalhas passadas. Não quero perder as derrotas e nem ficar revivendo as vitórias.

A magnitude de tudo isso é ver com os próprios olhos e o coração alheio que você cria exatamente o que você é. Não assim, sozinho, mas com ajuda impertinente, irresponsável e extremamente prazerosa das relações humanas.

Agora eu sei com quantos pais se faz uma pessoa. Obrigado a todos vocês.

Whatever: thanks

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em Citações, Introspecção, Millôr

5 Respostas para “Da onde viemos?

  1. helil

    Não tem de quê, disse o cabotino.

  2. Anonymous

    Pataquinha, acho que é o inferno astral… dia 21 tá aí, né?Beijos e parabéns pra nós.Moça

  3. Mr. J. / Mr. D.

    Um pé, depois o outro. Penso nisso quando falo desse tipo de responsabilidade por aí.(naa, a moça do sonho eu realmente não sei se sei quem é, de fato. mas acho que não é a moça dos vestibulares.)

  4. Ariett

    “As brigas que perdi/Essas sim/Eu nunca esqueci/Eu nunca esqueci”. Nem sempre as vitórias são mais importantes…

  5. Letícia Gonçalves

    Obviamente não fostes “gongado”! Mas acho que vc deve estar ficando velho… Seu último comentário foi “escreve aí, pô”, ou coisa que o valha. E tá lá. Beijo grande.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s