Um dia, uma praia.

As sete gotas d’água desceram escoradas por aquele corpo belo que se encontrava franzino e desprotegido. Havia certa tristeza e melancolia no ar bucólico daquele final de tarde. As nuvens desenhavam formas extensas e escorridas por causa do vento que insistia em ventar lá no alto e a sacudir todos os cabelos aqui no chão. Com ela não era diferente. Suas mãos delicadas alisavam sua própria cabeça como quem faz carinho em si, mesmo pensando ser a mão de outra pessoa. O jeito esparramado no chão com as pernas estendidas mostravam desleixo e preocupação com alguém que, definitivamente, não estava ali. As marcas na areia à sua volta e suas costas e cabelos pincelados com grãos da praia indicavam uma constante inquietação. Só a via de costas, sem nunca ver o rosto. Apesar da tristeza e solidão aparentes, a imagem não deixava de ser bonita e digna de admiração. Alguns minutos se passaram, mas sem conseguir precisar exatamente quantos foram. A imaginação sobre o que a mulher pensava remeteu à minha realidade e a problemas e saudades que me fariam sentar na areia e agir exatamente como a mulher à beira d’água. Tive vontade de chorar, de compartilhar o que sentia, de exprimir o que reprimi a vida toda e senti certa inveja de não estar sozinho na praia, sentado, enxugando as mágoas e saboreando as alegrias.

Mas o que realmente senti foi compaixão.

A mulher se levantou ainda de cabeça baixa e ombros curvados e seguiu a vida. Não pude ver nada além disso. Levantei e fui até o lugar onde ela se encontrava. No chão, bem próximo ao mar calmo e de ondas pequenas e reconfortantes, eram claras as marcas da água. Havia sete lágrimas, dispostas em formato de lamento e saudade. Ao longe, era possível uma última imagem da mulher, já com a cabeça erguida e as mãos fazendo o movimento de um andar mais confiante. De forma poética, uma onda despretensiosa limpou aquele momento pra sempre e deu paz a quem tanto procurava, pelo menos na minha história.

Whatever I tell you.

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5 Comentários

Arquivado em Contos

5 Respostas para “Um dia, uma praia.

  1. Anana

    to precisando de uma onda dessas, pra enxugar as mágoas e trazer um gosto de alegria…muito lindo o texto, Pataca, emocionante…

  2. Mr. J. / Mr. D.

    Nada como um dia após o outro.Nada.

  3. Lunna.

    Nada como observar o alheio. Já diria Ricky Fitts, “there’s so much beauty in the world”. Principalmente em imagens como esta.

  4. Foxxy

    quando crescer quero escrever assim…rsEntão, eu tenho um estilo, mas parece estranho se eu disser que não sei defini-lo assim da lata?rsE pode deixar que vou soltar mais as palavras, pelo menos tentar!rsrsVc é viajado, né?rsrs(dei uma de stalker e xeretei suas fotos…hihihi)bjo

  5. bjomeliga

    Pataca cada dia melhor. Se vc escrever um livro e deixa na gaveta, juro que roubo e publico. Como se fosse meu, óbvio.

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