Resquícios

São sete horas da manhã de uma manhã com chuva. Chuva e ressaca de um sono adiado por sete horas. Há sete dias que bebo sem parar, como se eu tivesse sete fígados ou sete vidas. Nunca gostei de números ímpares, pois acho a divisão perfeita imprescindível. Naquela manhã minha cara estava mais perto do chão, mais perto do lugar que melhor me ampara. O lugar, aqui pra mim, é o meu chão, meu lugar onde os pés se sentem mais perto do descanso. Logo ali, fica o mar, espraiado com seu contorno de areia que suja tudo sem deixar limpo nem sequer o próprio grão. E nem a água limpa o continente. Vi as cores do amanhecer. Minha têmpora de veias saltadas, meus olhos vermelhos e distantes permanecem abertos incessantemente sob a luz de sete sóis e sete luas. O sono me transborda, me acorda e me deixa ver o que madura cedo. Vejo flores e vejo também a trêmula chama quase sem fôlego que abasta uma breve fogueira. Num segundo plano minha memória justa emerge tesa e não me detalha. A cidade agora está paralela a mim, sob esse efeito que parece não ter fim. Não sou mais perpendicular. Nessa manhã descobri que nem a ciência progride e alcança minha matemática bêbada. Um, dois ou sete pontos de apoio não me serão suficientes para sustentar e entender que crescer dói. E dói pra caralho. Dói sete vezes mais que tentar dormir e não conseguir. Sou minha melhor caricatura.

Whatever cartoon

3 Comentários

Arquivado em Autobiografia, impressões

3 Respostas para “Resquícios

  1. Fernanda Tralala

    courage, courage et toujours du courage……

  2. Anana

    a vida é ímpar, meu caro. e concordo com a parte de que “crescer dói pra caralho”. faz parte dessa falta de divisão perfeita a que chamamos de existência. se fosse perfeito, talvez não tivesse tanta graça. eu sou fã dos pares, mas parece difícil encontrar este ponto de apoio nos dias de hoje.incríveis os seus textos.

  3. bjomeliga

    Eu tinha feito um comentário, daí ele não aparece, mas ok, vou tentar outra vez. Dizia que não sei por que lendo o post, te imaginei voltando pra casa pós madrugada de domingo pra segunda no CPE. Não me bata pequeno Pataca, mas eu te vejo no CPE cercado de pombas e isso não é necessariamente ruim.Ruim mesmo é ter que crescer. E doer esse tanto. Pelo menos nos deixam beber em paz.

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